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Gradiente não saiu do coração dos usuários

Gradiente não saiu do coração dos usuários

Não, isso não é um jabá da Gradiente, muito menos estou sendo pago para divulgar a marca, que na realidade nem se chama mais assim (pelo menos em sua razão social). Também não vou falar de seu “iPhone”. O que vou escrever hoje volta no tempo e talvez faça muitos sentirem nostalgia ou, para aqueles mais jovens, talvez faça conhecer um pouco mais sobre os primórdios dos games aqui no Brasil. Senta que lá vem história.

polyvox_gradienteA Gradiente lançou diversos produtos ao longo de sua história, dos mais diversos segmentos e utilidades, como televisores, rádios e aparelhos de som e sua especialidade sempre foram os produtos eletrônicos, até os dias de hoje. Também foi conhecida pelas parcerias de sucesso que teve com grandes marcas mundialmente renomadas, como por exemplo a JVC e a Nokia, numa época em que nem se sonhava em vê-las oficialmente por aqui. Mas hoje vamos falar do que a Gradiente fez pelo público gamer, que na época nem tinha essa distinção.

Muitos devem se lembrar com carinho dessa marca, principalmente aqueles que viveram nas décadas de 80 e 90. E nem estou falando do “Meu Primeiro Gradiente”, mas sim de parcerias com empresas de games. A primeira delas foi a Atari, em conjunto com a Polyvox. Assim a Gradiente conseguiu a licença para montar e comercializar o Atari 2600, em 1983 sendo a primeira a trazer a marca para o Brasil oficialmente. Não somente trouxe o Atari 2600 como também seus cartuchos ao mercado brasileiro, fato que foi fundamental para o início oficial da comercialização de games e produtos licenciados por aqui.

Tudo bem, eu sei que antes disso já existiu o Magnavox Odyssey da Philips, mas esse não foi bem um licenciamento, já que a Philips já montava os consoles lá fora também. Houve também o TeleJogo da Philco Ford pouco tempo depois, mas este que pode ser considerado o primeiro console nacional também não se enquadra, pelo fato dele ter sido totalmente desenvolvido e comercializado por aqui. “Ah! Mas teve o Intellivision da Sharp no Brasil também!” – sim, mas neste artigo quero focar em um caso de uma empresa nacional, que não tenha sido uma divisão brasileira de alguma multinacional da época.

Contudo, os games já existiam muito antes disso por aqui, a questão é que não se tratavam de produtos oficiais ou licenciados, mas sim de clones, dos quais o mercado estava repleto. Por essa razão a chegada oficial da Atari por terras tupiniquins foi um marco e colheu ótimos frutos durante a época que durou. Entretanto, o único problema nisso era que o Atari 2600 tinha sido lançado em 1977 e só foi chegar oficialmente por aqui 6 anos depois, quando seu sucessor, o Atari 5200, já estava no mercado lá fora. Apesar disso, o crash na indústria dos games de 1983 não chegou a atingir o Brasil – muito pelo contrário, o Atari 2600 foi um dos consoles mais populares por aqui nos anos 80. Todavia, essa não foi a melhor parceria que a Gradiente fez relacionada aos vídeo-jogos e nem é o foco deste artigo.

Um fato curioso nessa trajetória foi o Phantom System, console lançado pela Gradiente no Brasil em 1988 entre tantos outros “Famiclones”, como eram chamados os clones de Nintendinho (NES) disponíveis no mercado. Mas como obteve um grande sucesso comercial, foi lembrado como o clone de NES mais popular do país, e talvez alguns de vocês até tenham um desses em casa. Este console é curioso por ter sido um resquício do falido Atari 7800, que a Gradiente pretendia lançar por aqui mas, devido à baixa procura de jogos e consoles da marca, decidiu por cancelar seu lançamento, mesmo com suas carcaças já prontas. O que aconteceu? Eles resolveram aproveitá-las para lançar o Phantom System, que poderia ter até o corpinho de um Atari, mas tinha coração de NES, lançado tendo em vista a popularidade que a Nintendo estava ganhando lá fora e por aqui também. E talvez isso tenha motivado o que ocorreu logo em seguida.

Fundada em 13 de setembro de 1989, a Playtronic, uma parceria entre a Gradiente e a Estrela (empresa de brinquedos famosa), começava sua trajetória numa missão muito louvável: trazer a Nintendo oficialmente ao Brasil. Isso não só deu certo, como era de interesse da própria Nintendo estar presente oficialmente por aqui, afinal para um país com a economia do Brasil na época, as vendas de consoles e cartuchos eram consideradas altas. No ano de 1991, por exemplo, o Brasil chegou a movimentar cerca de 100 milhões de dólares com a indústria dos videogames. Prevendo que o mercado só tendia a crescer, a oficialização da Nintendo por aqui não parecia uma má ideia.

Uma das maiores vantagens, diferente do licenciamento com a Atari, era produzir tanto os consoles quanto os cartuchos dos jogos Nintendo aqui mesmo, mais especificamente na Zona Franca de Manaus – e você achando que a Microsoft foi quem começou a fabricar games por lá! A questão é que isso diminuiria (e muito) o intervalo entre o lançamento dos jogos lá fora e aqui. Não apenas isso, como também essa parceria traria o suporte oficial da marca Nintendo ao Brasil, com centrais de atendimento e assistência técnica especializada.

Mas foi só em 1993 que a produção de consoles e jogos foi formalmente iniciada, devido à flexibilização do comércio de produtos importados com o fim da Reserva de Mercado no Brasil. Assim, entre os anos de 1993 e 1996, a Playtronic colocou oficialmente no mercado brasileiro consoles como o NES, o SNES, o Game Boy (primeira geração), o Nintendo 64 e até mesmo o famigerado Virtual Boy, com sets únicos criados para o público brasileiro pela própria licenciadora. A Playtronic, foi inclusive a primeira e única empresa a montar produtos Nintendo fora do Japão, e até hoje todos os componentes são fabricados e exportados de lá para o mercado internacional.

No entanto, o investimento não foi apenas questão de produção, mas também de divulgação, que deu origem aos comerciais de games mais memoráveis da nossa história, emplacando o slogan “É Nintendo ou Nada!”. A briga entre Nintendo e SEGA não foi só lá fora: por aqui até a competição era licenciada, já que a TecToy já cuidava de trazer produtos da empresa do ouriço azul ao Brasil.

Falando na TecToy, ela não foi a única a trazer games localizados para cá, naquela época chamados de “traduzidos”. Assim como as já citadas versões de produtos feitos especialmente para público brasileiro, alguns jogos chegaram a ser traduzidos pela Playtronic, como Super Copa para o SNES, que era uma versão do jogo Tony Meola’s Sidekicks Soccer. Além da localização, o jogo apresentava anúncios de empresas atuantes no Brasil, como a Adidas e a Elma Chips. Além disso, muitos outros títulos tinham ao menos suas embalagens e manuais traduzidos.

Infelizmente, o sucesso e os grandes investimentos não foram suficientes para evitar o derradeiro fim da Playtronic. Isso começou em 1996 com a saída da Estrela dessa parceria, por motivos nunca revelados, o que fez com a proprietária majoritária da empresa mudasse seu nome de Playtronic para Gradiente Entertainment Ltda.

Em 2003, a Gradiente decidiu por definitivo encerrar sua parceria com a Nintendo, devido principalmente à alta das taxas de câmbio, o que deixava a importação dos produtos mais cara. Além disso, a redução da renda média da população desde meados da década de 90, além do índice crescente de pirataria – especialmente depois do lançamento do PlayStation 1 -, acarretaram na redução significativa da rentabilidade da Gradiente, o que tornou o negócio inviável para a empresa.

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Isso não só decretou o fim de uma parceria histórica, como também deixou muitos fãs da companhia órfãos – afinal, nenhuma outra colaboração posterior feita pela Nintendo por aqui foi tão significativa até sua saída do Brasil em 2015. Apesar da Nintendo não ter esquecido o Brasil, ela também parece não ter tanto interesse em trazer seus negócios para cá, pelo menos por ora. O que é uma pena, já que devido a isso talvez nunca tenhamos uma eShop brasileira.

O Brasil é um mercado importante para a Nintendo e lar de muitos fãs apaixonados mas, infelizmente, desafios no ambiente local de negócios fizeram nosso modelo de distribuição atual no país insustentável. Estes desafios incluem as altas tarifas sobre importação que se aplicam ao nosso setor e a nossa decisão de não ter uma operação de fabricação local.

Bill van Zyll, diretor e gerente da divisão Latino Americana da Nintendo of America.

Apesar dos pesares, toda essa história ainda nos deixa boas lembranças, e certamente quem viveu essa época de perto tem ótimas recordações, seja jogando seus games, vendo seus anúncios em revistas ou mesmo seus comerciais icônicos na TV. A Gradiente foi a responsável por trazer essas alegrias para a vida de muitos, que hoje em dia tem orgulho de se declarar gamers mas que, acima de tudo, tiveram infâncias mais felizes por isso.

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